Quarta-feira
um dia comum
Acordou de manhã numa quarta qualquer. Não qualquer. Hoje estava de folga. Almoçaria com sua filha, razão de sua alegria. Os dias felizes eram os dias com ela. 21 anos, passou a fase chata da adolescência, a fase de trocar o pai pelos amigos. Agora, já trabalhava, morava fora, estudava. Dias felizes os de ver a filha. Levantou como o costume e tomou sua vitamina C. Sempre pedia para filha tomar, vivia gripada. Levantou, tomou sua vitamina, preparou um café solúvel ruim na sua caneca preferida amarela do snoopy que ganhou do dia dos pais no ano passado. Ser pai é a razão de sua alegria. Deixou a louça pra depois do almoço, enrolou seu baseado, ah seu baseado. Razão de mais alegria. Calmaria. Acordou bem, feliz. Amava viver, estava sempre de bom humor, fazendo piada ruim pra quem quer que fosse. Extrovertido, gostava de conversar, boa companhia. Brincou com o cachorro. Estava bem, queria nadar, hábito que amava desde que se conhecia por gente. Amava nadar, amava a água, amava o mar. Seu sonho era morar no mar. Largar tudo, viver num barco. Gostava de mergulhar. Mergulhador profissional. Gostava de tubarões, já mergulhara com tubarões. Gostava de baleias, sobretudo os golfinhos. Quando a filha estava na barriga, levou a mãe de sua filha para mergulhar, os golfinhos descobriram, vieram visitá-la. Mergulharam com os golfinhos, com ela na barriga. A razão da sua alegria. Gostava do Mestre Jonas, também queria morar dentro da baleia. Gostava de submarino amarelo, sua cor preferida. Gostava de cantar submarino amarelo com sua filha. Amava o mar. Sua filha, Marina. Não poderia ser outro nome. Queria nadar antes de encontrar sua filha para o almoço. Nadaria. Enviou uma mensagem naquela quarta comum. “oi, fi! vamos almoçar um pouquinho mais tarde? vou nadar. depois do almoço que tal um cinema?” “claro, pai” “até mais, fi. eu te amo para sempre e a vida não tem fim.” Também te amo, pai! Otimista com a vida. Amava viver, amava sua filha, amava o mar. Amava skate e esportes radicais. Amava nadar, amava o cachorro, amava seu baseado. Amava sobretudo Jesus Cristo e o Corinthians. pegou sua bicicleta e subiu para o clube. Brigou no trânsito. Não amava, se estressou, precisava relaxar. Tudo bem, ia nadar. Brincou com o porteiro, seu amigo. Reclamou do trânsito, reclamou da briga, subiu as escadas, se trocou, tirou seu crucifixo. Arrumou seu estojinho para o banho depois. Um sabonete de bebe, uma gilete barata, um shampoozinho. Não tinha um fio de cabelo, gostava de deixar a careca macia. Colocou seu crucifixo no estojo. Nadar, tomar banho, buscar sua filha. Pensou no almoço, bateu a larica. Estava feliz. Entrou na água, nadou um pouco, queria meditar. Como um bom nadador tinha fôlego de sobra. Gostava de meditar debaixo da água, era seu lar. 5 min sem respirar. Curtindo o silêncio que o fundo traz. A calmaria. A mansidão. Feliz, seu lar. Morreu. Assim, sem mais nem menos. Fechou os olhos e morreu. Feliz. Amando. No diagnóstico? Infarto. No atestado de óbito, afogamento. Irônico para um mergulhador. Morreu na água. Voltou para seu lar. Com jesus cristo, com as gaivotas, com o mar da cor de seus olhos. Te amo e a vida não tem fim, a vida não tem fim. Mas morreu assim. A última música que ouviu - 2001, dos Mutantes. A cor do céu o compõe, o mar azul te dissolve. Minha dor é cicatriz, tua morte te quis. Morreu numa quarta qualquer. Encheu o velório de gente. Mendigos chorando ao lado de donos de empresa. Esse era você. Caixão fechado. A memória pra sempre. Celebrar sua vida todos os dias. Um dia, morar no mar. Astronauta libertado sua vida ultrapassa em qualquer rota que faça.



